segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

ILUSTRE DESCONHECIDO

Fundada em 1906, no estado norte-ame-ricano de Wisconsin, a Kissel Motor Car Company chegou a se destacar no cenário automotivo do início do século pela confiabilidade dos seus produtos - foi a bordo de um Kissel que a primeira mulher cruzou, sozinha, os EUA, em 1915. Com o advento da I Guerra, a marca se especializou na produção de caminhões pesados e viaturas para o corpo de bombeiros e perdeu espaço entre os automóveis de passeio até ser engolida pela depressão dos anos 30. A boa fama dos seus produtos, no entanto, se manteve até o fim, como no SS 1926 da foto, que mostra a grade arredondada na parte superior, característica da marca, e já trazia modernas rodas fechadas quando o padrão ainda eram as raiadas. Esse carro esteve no Brazil Classics 2006 e é uma das 150, das 35 mil unidades produzidas pela marca, que sobreviveram ao tempo. A curiosidade fica por conta da placa de licença, provavelmente a primeira e única que o velho Kissel carregou em toda a sua vida.

domingo, 18 de janeiro de 2009

EUROPA X AMÉRICA - ROUND XI

Com a queda da demanda por mate-riais béli-cos após o fim da II Guerra, a indústria automotiva começou a readaptar o ferramental de suas fábricas para voltar a produzir veículos, inicialmente aproveitando projetos do pré-guerra, que tinham condições de ser colocados mais rapidamente no mercado para atender à demanda reprimida. Dois dos modelos mais comuns no Brasil dos anos 50 representam exatamente essa fase da história do automóvel e estão escalados para o duelo de hoje, o Citroën Traction Avant e o Chevrolet Fleetmaster, os carros típicos do cidadão médio da França e dos EUA no pós-guerra. Lançado em 1934 como prova da capacidade técnica da Citroën, o revolucionário Traction Avant demandou tantos esforços que praticamente quebrou a empresa, forçando sua venda para o grupo Michelin. Embora precedido por modelos alemães e norte-americanos na adoção da tração dianteira, ele foi o primeiro a oferecer as reais vantagens desse sistema, como o espaço interno inédito e a estabilidade imbatível, para a qual colaboravam a estrutura em monobloco e o centro de gravidade baixo. Produzido até 1955, ele oferecia várias opções de motor quatro cilindros e um de seis em linha. Para privilegiar ainda mais o espaço, a caixa de marchas era montada à frente do motor, motivando a estranha posição da alavanca, saindo do painel. Já o Fleetmaster 1948, ultimo ano de evolução de um projeto de 1935, era o conceito oposto, ul-traconser-vador em tudo, tal-vez o me-lhor exem-plo do bom, bonito e barato - para os americanos, claro! Carroceria construída separada do chassi, motor seis em linha dianteiro, tração traseira, suspensão molenga, pouca potência específica e enorme robustez e durabilidade fizeram do Chevy o queridinho dos taxistas e frotistas, como o próprio nome Fleetmaster sugere. Seu estilo era mais sintonizado com os anos 40 do que o do francês, mas ninguém, naquela época, ousaria rotular o Citroën como antiquado. Quem tem mais de 25 anos se lembra que foi o Traction Avant o carro escolhido para a fuga da família Von Trapp para a Suíça no clássico A Noviça Rebelde, pois o almirante austríaco sabia que, com ele, nenhum carro o alcançaria naquelas estradas sinuosas. Se ele estivesse num Fleetmaster, o final do filme poderia não ter sido feliz. Europa 6 x 5 América.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

CLASSIC SHOW NA BERLINDA

O Nik Ramos, do ótimo Blog dos Carros Antigos, levantou uma polêmica há muito comentada informalmente entre os antigomobilistas sobre a qualidade de algumas matérias da Classic Show, a maior publicação sobre carros antigos do Brasil. Pessoalmente, acho que, se bem conduzidas, as polêmicas só fazem bem para qualquer empreendimento e já dei minha colaboração no blog do Nik. E aí? Você gosta ou não da Classic? Quer sugerir alguma melhoria? Dê sua opinião lá!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

NOVOS AMIGOS

Para os que se divertem com as bobagens que escrevo por aqui, sempre que possível ilustradas com fotos de carros residentes no Brasil, o Antigos Verde Amarelo, do meu colega Guilherme Gomes, é uma ótima contrapartida, já que ele usa, principalmente, fotos de época. Os comentários são curtos e objetivos e a pergunta a ser feita para o Dr. Guilherme é algo como "onde você arranja tantas fotos?". Já o Ararê Novaes merece nossa reverência como um dos grandes ilustradores automotivos da Brasil - e, de quebra, seus desenhos são sempre "ilustrados" com ótimos textos. A partir de hoje, aí, na coluna da direita!

TRADIÇÃO ESQUECIDA

Normalmen-te, é atri-buída aos ingleses a criação do conceito de esportivo pequeno, barato e descompli-cado, con-cretizado no ícone MG TC, que encantou os soldados norte-americanos aquartelados na Europa após o fim da II Guerra. Como a história normalmente é contada pelos vencedores, quase todo mundo se esqueceu da forte tradição dos alemães nesse tipo de carro, cujo exemplo mais bem-sucedido foi o Adler Trumpf Junior Sport, parte integrante da linha Trumpf (muitas vezes grafada incorretamente como Triumpf), que englobava diversos tipos de carroceria e uma gama de motores de quatro cilindros e quatro tempos que ia de 1.0 (Junior) a 1.7 litro; a tração era dianteira, como no seu maior concorrente, o DKW Front. Lançado em uma época de otimismo, seu belo design era exaltado, nas peças publicitárias, como o carro esportivo da jovem Alemanha e sua produção durou de 1935 a 1937, contribuindo para colocar a Adler entre os três maiores fabricantes alemães de veículos nos anos 30 - não houve modelos da marca após a II Guerra. A bela foto acima mostra os irmãos Marx conduzindo seu raro exemplar no desfile da premiação no Brazil Classics 2006 e foi tirada pela organização do evento, eternizando um dos pontos altos da festa.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

OUTRO ÂNGULO, OUTRO APELIDO

O Henry J da foto ao lado, pri-meiro mo-delo com-pacto lan-çado pela Kaiser, já apareceu visto de frente em um antigo post aqui do blog, que chamava a atenção para a denominação equivocada que ganhou no Brasil (Henry Jr.). Visto de costas, é fácil entender a razão do outro apelido do estranho carrinho - Frango Assado. Além do desenho esquisito da carroceria que motivou a brincadeira, ele trazia outros detalhes insólitos, como a posição do espelho retrovisor e um "dente" na parte de cima da vigia traseira que se repetia no pára-choque, mostrando como os americanos, mesmo em modelos simples e baratos, foram os mestres da forma sem função nos anos 50.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

FALANDO EM PININFARINA...

Certa vez, pergunta-ram ao famoso carrozziere qual era o seu trabalho preferido e ele apontou o Cisitalia 202, um Grand Tourer que usava mecânica Fiat 1100 e que, hoje, faz parte do acervo permanente do MoMA de New York. Construído entre 1947 e 1952, ele antecipou tendências vistas em grandes esportivos que viriam nos anos seguintes, como as berlinettas Ferrari e Maserati. Em uma Europa ainda se refazendo das feridas da II Guerra, os 168 km/h alcançados pelo pequeno motor de 50 cv líquidos eram uma ótima marca, mas a beleza e o desempenho do 202 não foram suficientes para impedir a falência da Cisitalia, abreviatura de Consorzio Industriale Sportivo Italia, ainda nos anos 50, após ter conquistado vitórias até na F-1. Curiosamente, os passos do fabricante italiano foram seguidos pela Porsche que, encorajada pelo sucesso do esportivo com mecânica Fiat, procurou a Volkswagen para o fornecimento da mecânica básica dos primeiros 356 feitos em Gmünd - só que o destino da Porsche, como se sabe, acabou sendo bem mais glorioso do que o da sua inspiradora. O modelo da foto esteve no encontro de Meadow Brook, MI, em 2005 - se fosse um evento europeu, dificilmente o esportivo estaria com as indefectíveis faixas brancas nos pneus...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

PALAVRA DE QUEM ENTENDE DO MÉTIER

No final dos anos 30, graças ao eixo nazi-fascista, Itália e Alemanha eram na-ções muito próximas, inclusive com inter-câmbio de tecnologia nos campos industrial e militar. Assim, aproveitando a tradição do design italiano e valendo-se do seu prestígio junto ao ditador Benito Mussolini, o governo nazista pediu para Battista Pininfarina avaliar e retocar o desenho final do KdF-Wagen assinado por Erwin Komenda, integrante da equipe do Dr. Ferdinand Porsche. Reza a lenda que Pininfarina teria devolvido o desenho sem nenhum retoque, acrescido apenas de uma recomendação para aumentar a área envidraçada e com a alegação de que as formas do futuro Fusca eram de tal singularidade que não permitiam retoques, sendo necessário um projeto inteiramente novo para eventuais modificações. Nas décadas seguintes, já sem a influência do governo nazista, a Volkswagen seguiu à risca as orientações do mestre italiano, como mostra a foto acima com o 50 do Ronaldo Fachin e o meu 69 - e o Fusca chegaria até 2003 com as mesmas formas, exceto pelos vidros maiores...

AUTOMÓVEIS E POLÍTICA

Com um vasto terri-tório e uma enorme riqueza de recursos naturais, o Brasil pas-sou a ser cobiçado pelas super-potências quando resolveu acelerar seu processo de industrialização a partir dos anos 30, principalmente por alemães e norte-americanos, que queriam consolidar sua influência política e econômica na América do Sul. A queda de braço antre a Alemanha e os EUA na decisão sobre quem construiria a CSN (disputa entre a Krupp e a U.S. Steel Corporation) seria vital para os interesses da cada nação, tendo havido lances magistrais de ambos os lados, envolvendo até a história do Horch dado de presente por Hitler a Getúlio Vargas. A vitória acabou ficando com os norte-americanos, que passaram a contar com o apoio da FEB na II Guerra e possibilitaram que o Brasil acumulasse enormes divisas em moeda forte por causa da venda de matéria-prima aos aliados. Rico e cheio de otimismo, o país acelerou seu desenvolvimento industrial nos anos 50, tendo se destacado, nesse processo, um médico que faria carreira política brilhante: Juscelino Kubitschek, que, ainda governador de Minas Gerais, ganhou a simpatia dos americanos graças ao seu empreendedorismo e recebeu de presente do Presidente Dwight Eisenhower este Cadillac Dehram Limousine 1953, que serviu ao Palácio da Liberdade durante algum tempo e hoje faz parte do acervo do Veteran de BH, mostrando como a história do automóvel se misturou à geoplítica do século XX. Para os detalhistas, vale a pena comparar esse modelo ao Eldorado 1953 e observar como as linhas da limousine são bem mais comportadas do que as do conversível.

domingo, 11 de janeiro de 2009

RELARGADA

Depois de umas sema-nas de descanso, reiniciamos com força total, ini-cialmente procurando dissolver qualquer eventual dúvida so-bre os carros mais antigos do Brasil. Já se falou aqui do Le Zèbre, que está entre nós desde quando era novo e do De Dion, o mais antigo emplacado no país, mas que veio para cá já na condição de peça da coleção. Pois bem, o primeiro carro a aportar em terras brasileiras foi um Peugeot Tipo 13 Vis-a-Vis 1891, trazido por Alberto Santos-Dumont em 1898 após ter sido usado por ele próprio em Paris durante algum tempo. O Peugeot teria servido a família do aviador até 1902, como nos conta o Roberto Nasser em um delicioso artigo no Best Cars, mas saiu de circulação naquele ano por causa de desentendimentos com a administração do trânsito e nunca mais se teve notícias dele - não existe sequer uma foto do carro dos Santos-Dumont, que era semelhante ao modelo acima, produzido em 1892; seu motor de quatro tempos tinha singelos 8 hp.