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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

BLUE CLOUD 2013 - A ESSÊNCIA DO ANTIGOMOBILISMO

Como pode uma marca descontinuada há 46 anos continuar despertando tanta paixão? Por que um carrinho barulhento, fumacento e beberrão ainda é capaz de motivar 107 apaixonados a colocá-los na estrada, com alguns rodando por mais de 1000 km, para que se encontrem em uma estância no sul de MG? A resposta está no clima de mais autêntica camaradagem visto no XI Blue Cloud, que ocorreu em Poços de Caldas no último final de semana e repetiu a impressão deixada em 2011, na mesma cidade: trata-se de um dos melhores - talvez o melhor - encontro de automóveis antigos do Brasil. A paixão pelos carros, a vontade de trocar informações e experiências a respeito dos desafios de manter os DKW em funcionamento e, principalmente, o clima de inclusão dos que, como eu, não possuem um veículo da marca, não deixam espaço para a fogueira de vaidades que costuma marcar presença na maioria dos encontros de antigomobilistas pelo Brasil afora, com discussões intermináveis a respeito das imperfeições dos carros dos outros e de premiações injustas - aliás, não há premiação no Blue Cloud, um exemplo a ser seguido por outros encontros. Impressionante como, ao lado de figurinhas carimbadas como essa Sonderklasse 1957 da família Witzke, ou o Malzoni II, restaurado pelo filho do seu criador, ou essa Wartburg 311, a cada ano aparecem novidades dignas de tardes inteiras de discussões entre os entusiastas. Esse ano, os holofotes se dividiram entre a Universal 1956 do Flavio Gomes - carinhosamente apelidada de Miss Universe -, provavelmente o décimo carro fabricado pela Vemag  e candidata ao título de carro brasileiro mais antigo conhecido, e o Fissore 1965 do colecionador Marcelo Zeugner, absolutamente impecável e equipado com a raríssima (entre automóveis brasileiros) embreagem SaxOmat, que dispensa o pedal da esquerda para a troca de marchas. No mais, o barulhinho das "pipoqueiras" e o perfume de óleo dois-tempos deu o tom do evento. Faço aqui um agradecimento ao Roberto Fróes, conhecido colecionador do RJ que, muito gentilmente, nos convidou para uma volta no seu Belcar 1961, o mesmo usado na filmagens do clipe Solitário Surfista com Gabriel, o Pensador e Jorge Benjor. Curtam as fotos do que de inédito apareceu no Blue Cloud desse ano.

A Universal 1956 do Flavio Gomes, décima unidade a sair da fábrica da Vemag

O absolutamente impecável Fissore com embreagem SaxOmat

Do lado de lá da Cortina de Ferro e do lado de cá do Atlântico, duas peruinhas com o mesmo pedigree

Belcar (ou Grande DKW-Vemag, já que é de 1960) com a grade dos modelos Auto Union argentinos em um trabalho primoroso de restauração

A DKW foi a maior produtora mundial de motocicletas antes da II Guerra. Depois do conflito, a fábrica ficou do lado comunista da Alemanha e a marca foi renomeada MZ, que cedeu muito do seu DNA para as saudosas Yamaha nacionais, de motor dois-tempos

São raros os eventos de antigomobilismo em que você vê cenas como essa

quarta-feira, 6 de junho de 2012

MARCAS RESSUSCITADAS

A observação veio da ótima cobertura do Paulo Levi sobre o museu da Audi em Ingolstadt. Seria a Audi um caso único de exumação, nos anos de ouro do automóvel, de uma marca extinta? Como já dito por aqui, as fábricas do grupo Auto Union, inclusive a da Audi, ficaram no território alemão ocupado pela URSS e os ocidentais resolveram dar continuidade apenas à DKW no pós-guerra, hibernando Wanderer, Horch e Audi, sendo que esta última ressurgiu em meados dos anos 60, como já contado aqui. Na hora em que li a reportagem do Paulo me veio à mente um álbum de figurinhas da Quatro Rodas de 1989 que trazia uma das primeiras carruagens sem cavalos, um Wartburg 1898 como o da foto acima (provavelmente o mesmo carro), um dois-lugares com motor de dois cilindros e 3 cv feto sob licença a partir de um veículo francês chamado Decauville. A Wartburg pereceu já em 1904, mas o nome foi resgatado pelo governo socialista da DDR para aproveitar uma fábrica da BMW próxima à fortaleza de Wartburg (que, incidentalmente, é o cenário da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner) e fabricar projetos DKW sob outra marca, que fez parte do conglomerado VEB Automobilwerk Eisenach.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

CADÊ O LUBRIMAT?


O misturador automático de óleo na gasolina para motores de dois tempos, visto aqui nos Vemag a partir de 1964, foi uma enorme conquista para os entusiastas dos DKW, já que poupava o motorista do trabalho de ter que ficar fazendo as contas da proporção correta a cada abastecimento. Embora engenhoso, o aparelho, conhecido como Lubrimat, não tinha nenhuma tecnologia de ponta em sua concepção, de modo que causa estranheza notar que os Trabants e Wartburgs, dotados de conjuntos mecânicos concebidos pela DKW, não o tivessem como equipamento padrão nem em suas versões finais, retiradas de linha só na virada dos anos 90 - cabe lembrar que o Wartburg 353 da foto apresentava sofisticações técnicas nunca vistas nos "primos" brasileiros, como ignição transistorizada e carburador de corpo duplo. Conversando com o Flavio Gomes, veio a singela explicação: como esses dois modelos eram a maioria esmagadora da frota da DDR, os postos de combustível já eram dotados de bombas que aplicavam a mistura correta a cada abastecimento, dispensando a engenhoca. Azar dos colecionadores atuais, que têm que fazer os cálculos corretos para a proporção de óleo na gasolina que, no caso do Wartburg, é de 50:1, ante os 40:1 dos DKW-Vemag.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

BLUE CLOUD 2011 - DETALHES, CURIOSIDADES E CONSIDERAÇÕES FINAIS




Para fechar a cobertura do Blue Cloud:
- A Audi finalmente parece apontar para uma mudança de postura e apoiou, embora timidamente, um evento que envolve diretamente suas tradições, mandando dois TT para a exposição e hasteando uma bandeira com sua marca na fachada do hotel. É pouco, diante do que faz a Fiat em Araxá, por exemplo, mas é um começo.
- A Dekabrás, loja gaúcha especializada em DKW, levou até um Belcar 1965 para test drive, mas não permitiu que não-proprietários da marca - como eu - guiassem o carro, o que me parece um contra-senso com os potenciais clientes da empresa; quem já tem um DKW, a não ser que seja colecionador especificamente daquela marca ou que use o carro no cotidiano, dificilmente vai querer os serviços da Dekabrás regularmente. O Sr. Matheus Jaeger se limitou a me entregar seu cartão de visitas e se colocar à minha disposição para quando eu tiver um DKW...
- Está mais do que na hora das pequenas estâncias darem mais importância a esse tipo de evento, que movimenta o comércio e a hotelaria locais em períodos de baixa temporada com um público disposto a gastar dinheiro, fora a repercussão nas mídias, que sempre traz de carona algo da cidade. Contactar clubes dispostos a organizar um não deve ser difícil.
- Os encontros focados em uma marca ou modelo trazem um charme diferente em relação aos encontros mais generalistas que normalmente ocorrem. No Brasil, o Blue Cloud só tem como paralelos, em características e proporções, o Mopar Nationals e o Amigos do Galaxie. Mavericks, Opalas e outros hits capazes de mobilizar uma quantidade razoável de entusiastas permanecem órfãos de encontros próprios. Os colecionadores de Fusca e congêneres têm tentado algo, mas o resultado ainda é tímido, resumindo-se a encontros regionalizados. Mercedes, BMW, MG e outras têm encontros mais restritos.
- A ausência de clubes, federações, diretoria e aspones em geral, bem como a abolição do concours d'elegance e sua habitual bonfire of the vanities, assim como a presença de personalidades ligadas à história da Vemag (Bob Sharp, Bird Clemente, Marinho, Kiko Malzoni e Crispim estavam por lá), podem indicar o caminho para o sucesso de empreitadas semelhantes.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

BLUE CLOUD 2011 - OS IRMÃOS DO LESTE


Como se sabe, os carros fabricados na antiga Alemanha Oriental até 1990 eram provenientes de projetos DKW dos anos 30, já que as indústrias da marca ficavam em cidades ao leste do país e acabaram estatizadas após a ocupação pelo Exército Vermelho no final da II Guerra, tendo sido o complexo produtor da Auto Union renomeado IFA. Portanto, um Blue Cloud não seria completo sem a presença de representantes da DDR. Houve dois: o Trabant do Flávio Gomes, do qual falo em um próximo post, e essa perua Wartburg Camping 311 1964, já velha conhecida da turma do dois-tempos. A Wartburg não fazia parte da IFA, mas de outro complexo, denominado VEB, que aproveitou uma fábrica da BMW que ficou nas mãos dos soviéticos, mas preferiu produzir veículos de menor custo, mais condizentes com o modelo sócio-econômico apregoado pelo socialismo. Carro interessantíssimo que, ao que parece, foi trazido para o Brasil em conta-gotas por um importador independente cujos folhetos de propaganda exaltavam a tecnologia da RDA!

sábado, 24 de janeiro de 2009

(PSEUDO) EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES - VERSÃO CORTINA DE FERRO

Enquanto a Alemanha Ocidental brindou o mundo com Mercedes SL e Porsches, o lado de lá oferecia o Trabant e o Wartburg, modelo que acabou ficando menos conhecido do que o "concorrente" feito pela Sachsenring. A Wartburg foi uma das muitas marcas alemãs cuja história se confundia com a própria origem do automóvel, mas que conheceu cedo a decadência e desapareceu ainda antes da I Guerra. Como o nome tem muito apelo no país - Wartburg é uma famosa fortaleza medieval alemã -, os soviéticos resgataram a marca para produzir um modelo de mecânica DKW em uma fábrica que pertenceu à BMW até a II Guerra, que acabou ficando do lado comunista da Alemanha ocupada, próxima à velha fortaleza. O modelo 353 da foto, lançado em 1969, trazia estilo convencional e construção ortodoxa de carroceria sobre chassi, mas, ao contrário do Trabant, usava chapas de metal. Após a débâcle do Império Soviético em 1989, os últimos modelos, como o verde em primeiro plano, receberam um moderno quatro cilindros da Volkswagen e discretas atualizações de estilo (as rodas e os spoilers do modelo da foto não são originais), mas se mantiveram basicamente os mesmos de vinte anos antes e não resistiram à concorrência ocidental, saindo de linha em 1991. A foto foi tirada do ótimo Autos von Gestern (carros do passado, em uma tradução livre); para os que curtem as imagens, mesmo que não entendam alemão, a visita vale a pena.