quarta-feira, 5 de maio de 2010

CINQÜENTONA EM GRANDE ESTILO


Dois lançamentos marcaram o ano de 1953 como, talvez, o marco inicial da escalada da escola de design norte-americana rumo aos delírios do final da década: os exclusivíssimos Cadillac Eldorado e Buick Skylark, ambos oferecidos, exclusivamente na versão consersível, como séries especiais de produção restrita naquele ano. A identificação do Skylark com o primeiro Eldo é imediata: rodas raiadas, o "ombro" logo atrás das portas e menor altura do solo que lhe davam ares esportivos, detalhes que seriam incorporados a modelos menos exclusivos com o passar dos anos; o novíssimo V8 322 (5.3 litros) aposentava o venerado straight-eight, mas o câmbio continuava Dynaflow. Curiosamente, as peças publicitárias o exaltavam como a six-passenger sports car! Os dentes da grade e o friso lateral formando um arco descendente não deixam dúvidas quanto ao pedigree da marca, mas o desenho da dianteira, de aspecto um tanto tristonho, não era tão feliz quanto o dos anos anteriores. Concebido para marcar os 50 anos da Buick, o Skylark não deixou uma linhagem como o Eldorado, embora o nome tenha sido aproveitado na década seguinte para designar um modelo compacto, basicamente um clone do Oldsmobile F-85 e, posteriormente, do Chevelle.

19 comentários:

Guilherme da Costa Gomes disse...

E o único Eldorado 1953 do Brasil está passando por uma criteriosa restaração que o trará à sua cor de fábrica!

Mauricio Morais disse...

Luiz, é interessante você destacar o aspecto tristonho da "cara" do carro. A grade, formando um arco voltado para baixo nos lembra uma boca decaída, triste e os piscas debaixo dos faróis se parecem com lágrimas. Pouca coisa bastaria para mudar esse aspecto.
Mas no conjunto da obra é um belo carro.

Luís Augusto disse...

Guilherme, o Eodorado de Curitiba realmente merece. Ainda mais estando na cidade da Phoenix Studio.
Maurício, a grade dos Buick fazia esse arco desde 1946, se não me engano, mas sempre transpareceu mais agressividade do que tristeza.

Guilherme da Costa Gomes disse...

Pois é Luís, mas a oficina escolhida foi a "RH restaurações". O site da Phoenix antes era mais interessante, agora não se vê nada...

Luís Augusto disse...

o RH é de Blumenau, certo? Coisa de primeiríssima também.

roberto zullino disse...

Esses carros eram conhecidos por "cumprimentar", nas freadas abaixavam a frente até quase bater o parachoques no chão.
A caixa dynaflow foi uma das primeiras a usar engrenagens planetárias e permitia que se engatasse a marcha a ré em emergências de "perca" de freio.
O recomendado era se engatar a ré e acelerar. O carro ia para a frente e de repente parava e começava a voltar para trás.
Meu pai teve um 54 daqueles tipo fleetline, mas o dia que fez isso o carro acabou na oficina, ele não leu o manual que advertia que a caixa poderia quebrar e a ré só devia ser usada em emergências.
Esses carros já chegavam bichados, a maioria era roubada nos USA e mandada para cá na cara dura, igual ao Paraguai. O Buick explodiu o diferencial na Dutra na volta do Rio. A josta tinha ficado parada no porto uns seis meses e ressecou a gaxeta do diferencial. A coroa e pinhão funcionavam como uma bomba e jogaram todo o óleo fora em cima da junta do cardã. Isso devia estar acontecendo há tempos, mas o carro andava no máximo 40 km por dia e o diferencial devia apenas esquentar. Na hora que andou 400 para ir e mais 200 para voltar explodiu.

Carros Antigos disse...

Zullino, falta muito pra todas essas histórias virarem um senhor livro?

roberto zullino disse...

Jamais, sou ideológicamente contrário a livros desse tipo, a totalidade é desatualizada, mal escrita, mentirosa e fica velha logo, fora que a maioria pe matéria e fotos requentadas e copiada. O livro existe para contar uma história, mas irá ficar circunscrito à literatura, o que é muito bom
Prefiro a internet, os blogs e foruns, que são as maneiras modernas de contar histórias com a vantagem da interatividade com o leitor.
Acho que acabo e conhecer melhor quem me lê, eles também acabam me conhecendo melhor, há mudanças de opinião e enfoque, coisa que jamais um livro teria.

Anônimo disse...

Engrenagens planetárias foram usadas desde o início do automóvel. P. ex. o Ford modelo T de 1908 funcionava com esse sistema. Sem falar nas transmissões pré-seletoras Wilson (britânica) e Cotal (francesa) dos anos 30. A Dynaflow foi pioneira com o conversor de torque. Mas era possível passar da posição Low (1ª) para Reverse (ré) em baixa velocidade, a fim de movimentar um carro atolado na neve, barro ou areia. Eu mesmo fiz essa manobra com um Chevrolet Powerglide, mecanismo semelhante ao do Buick. Agora, usar R para freio de emergencia provocava inevitavelmente a ruptura da caixa. AGB

Anônimo disse...

O último Buick com traseira tipo fastback ou sedanete (Fleetline era o modelo equivalente da Chevrolet) foi o 1951. AGB

Anônimo disse...

Em julho de 1953 o Brasil entrou em crise cambial e a importação de automóveis foi submetida a impostos extorsivos. Mas era possivel trazer do exterior um veículo sem pagar taxas, de modo que os vivaldinos viajavam (ou pagavam alguem para viajar) aos EUA e retornavam com um carro. A vigarice ficou tão escandalosa que a alfândega passou a apreender esses autos e os deixar ao relento nos portos, principalmente Rio e Santos. Muitos acabavam liberados por medidas judiciais mas, quando os trâmites eram demorados, a inatividade, falta de manutenção, furto de peças e a maresia já tinham exercido seu efeito deletério. AGB

Luís Augusto disse...

Prezados Zullino e AGB, as Powerglide/Hidramatic eram iguais à Dynaflow?

Anônimo disse...

Dynaflow e Powerglide eram semelhantes: ambos usavam conversor de torque acoplado a uma engrenagem epicicloidal de 2 velocidades. Já o Hydra-Matic original tinha um acoplamento hidráulico com caixa de 4 velocidades. A diferença entre acoplamento e conversor é difícil de explicar em poucas palavras. Nos anos 60, o Hydra-Matic substituiu o sistema antigo pelo conversor, com 3 marchas. AGB

Luís Augusto disse...

Ok, obrigado.

roberto zullino disse...

Eu não entendo muito de câmbios automáticos, apenas de observar meu pai que sempre teve carros automáticos.
No entanto, acho que os power-glides eram um pouco diferentes dos dyna-flow, sempre ouvi falar que os power-glides tinham cinta de aço parecidas com as usadas nos Ford T e os dyna-flow não.
A maior crítica contra os power-glides era a posição das marchas na alavanca. PNDLR, ao se andar e Drive e reduzir para LOW, para virar uma esquina por exemplo, tinha-se que mover a alavanca para baixo e a maioria dos "pouca prática" acabava engatando a Ré e quebrando a tal Âncora da Marcha à Ré. Já nos dyna-flow, como falei antes, o engate da marcha a ré era permitido, evidentemente não com a brutalidade que meu pai fez que acabou quebrando a caixa.
O Buick do meu pai era Fleetline mesmo pelo que lembro, foi comprado no Cassio Muniz novo e sempre achei que fosse 54, mas naquela época documentação era uma bagunça. O carro deve ter ficado no porto, pois as portas foram reformadas pouco tempo depois. Eu tinha 6 anos na época e só lembro que o carro era muito macio e enorme por fora e minúsculo atrás.
A curiosidade é que o Buick tinha duas chapas. Uma de São Paulo e outra do Rio de Janeiro. Nos anos 50 não se podia ir para o Rio e ficar o tempo que se quisesse. Na fronteira dos estados a polícia colocava uma papel no parabrisas dando permissão para o carro ficar 3 dias no Rio. Meu pai se encheu o saco e mandou licenciar nos dois estados, mas muita gente fazia isso.

Anônimo disse...

O Zullino tem razão em quase tudo. O câmbio Powerglide era mais simples que o Dynaflow (escrevia-se sem hífen) para baratear os custos, uma vez que seria vendido pela Chevrolet, marca popular (na visão EUA). Parece-me que custava apenas 100 dólares, hoje algo como 800-900 dólares. A colocação do L junto ao R era proposital, afim de facilitar a manobra que citei anteriormente. Mas para reduzir a velocidade usava-se o freio mesmo, pois passar do D (2ª) para o L (1ª) era um convite para visitar a oficina. Uma nota curiosa é que a caixa Dynaflow foi desenvolvida para um tipo de tanque da IIª Guerra. Pode-se imaginar o abuso a que foi submetida. AGB

roberto zullino disse...

Fui olhar para ver se achava a foto do carro e achei uma de um passeio a Interlagos, mas acabamos tirando a foto na frente de um Mercury 51/52 quando fomos tomar sorvete. Puta família incompetente. Eu era o menorzinho e não podia fazer nada.
Meu tio tinha um igual a esse da foto só que bordeaux, a capota devia ser eletro-hidráulica e vivia encrencando, os vidros também. O Aragão tem um aqui na rua que moro, é bordeaux e está bonito.
Esses carros nunca se deram muito bem por aqui, abriam as rodas da frente rapidamente e o pessoal esquentava o "telefone" e colocava as rodas no lugar, mas isso era um tremenda gambiarra. Telefone era uma peça que funcionava como um triângulo superior da suspensão dianteira e tinha o formato de um telefone, curva com o bocal de voz e o fone, era só esquentar e endireitar a peça que as rodas fechavam, pois o comprimento aumentava. Maçarico e marreta eram tecnologia de ponta. Aposto que todos os que estão aqui sofreram esse tratamento tupiniquim, vai cair uma roda dianteira mais dia menos dia.
A carburação era uma coisa que nem estagiário burro de escola de corte e costura faria. Oito cilindros com apenas um carburador no meio, os cilindros das pontas nunca recebiam gasolina, acho que se as velas desses cilindros fossem retiradas o carro andaria mais. Os Roadmasters tinham mais um carburador acionado mecânicamente se o pedal fosse mais pisado e deviam ser melhores. Em todo caso, o oitão empurrava mais do que as estradas e ruas permitiam.

Dan Palatnik disse...

Aprendi um bocado só de ler os comentários acima. Tanto de mecânica quanto de automosblismo no Brasil.
A "cara" deste Buick tem uma expressão pensativa, graças ao conjunto farol-pisca. A grade "waterfall" era um clichê da época. O DeSoto era outro "cachoeira" mas em 55 perdeu a dentadura. Talvez pela dificuldade de fabricação, ganhou uma grade furadinha estampada e talvez aí tenha sido o começo da derrocada da marca.

Dan Palatnik disse...

Esqueci de comentar que foi num Buick que Francisco Alves perdeu a vida na Dutra.