
Embora do-no de um território pouco ex-tenso, de uma popula-ção predo-minante-mente urba-na e de um exército que opera cheio de restrições desde a derrota na II Guerra, o Japão tem se destacado na produção de utilitários desde os longínquos anos 50, quando o Toyota Land Cruiser (o nosso Bandeirante) se tornou um dos primeiros produtos de exportação do país, digno de uma galeria de celebridades que começa com o americano Willys Jeep e passa pelo britânico Land Rover Defender e pelo russo Lada Niva. Difícil seria eleger o herdeiro do pioneiro da Toyota, já que o Land Cruiser atual abandonou a filosofia inicial para se render à ditadura dos SUVs que conquistaram os novos-ricos pelo mundo afora, muito mais preocupados em fazer bonito nas portas de restaurante ou nos estacionamentos de supermercado do que em enfrentar terrenos difíceis. Um candidato ao posto seria o Suzuki Vitara, que, embora ofereça algum conforto para os ocupantes, se manteve fiel à proposta de encarar qualquer parada no fora-de-estrada. Membro de uma simpática família, que inclui também o rústico Samurai e o pequeno Jimny, o Vitara surgiu em 1989, a partir de uma parceria com a GM americana, para substituir o Samurai nos EUA, onde foi chamado de Sidekick nas versões de três e cinco portas, o que

ocasionou uma certa confusão com seus nomes no Brasil, já que ele foi trazido tam-bém por im-portadores independen-tes via Miami. Minha experiên-cia ao vo-lante de um 4x4 se resume a Hyundai Tucson e Ford Explorer - ambos no asfalto e com câmbio automático - de modo que me senti realmente apresentado ao mundo dos jipeiros ao assumir o comando do Sidekick 1994 das fotos pela primeira vez. Apesar dos bancos confortáveis e de ítens como ar condicionado, direção hidráulica e comandos elétricos de vidros, travas e retrovisores, ele não deixa o motorista se esquecer de que está em um autêntico trilheiro, graças ao funcionamento um tanto áspero do valente 1.6 16V de 96 cv líquidos que, para ser ligado, exige que a embreagem seja acionada; parabrisa quase plano e câmbio de engates um pouco duros, embora precisos, e um enorme
pqp para o passageiro completam o ambiente. Troca de marchas em estilo esportivo? Nada feito; tentei por duas vezes e arranhei a segunda, sempre sob olhar severo do meu irmão Rodrigo, que comprou o Sidekick de um amigo na semana passada e se tornou o mais novo jipeiro e antigomobilista do Brasil. Para quem está acostumado com a estabilidade de carro antigo, o Suzuki até que vai bem no asfalto, embora sacoleje um pouco mais do que um Uno, por exemplo. A contrapartida vem na terra, onde ele mostra porque é impossível conciliar os reais atributos de um jipe com os de um automóvel comum, como tentam as SUVs. Embora tenha encarado apenas obstáculos leves sob meu comando, dá para imaginar do que o valente japonês é capaz em mãos mais e

xperientes, já que ele passa uma sensação de indestrutibilidade próxima à de um tanque de guerra. O câmbio e a suspensão, rústicos de-mais para o uso urbano, se sentem à vontade quando exi-gidos em condições extremas, nas quais também está disponível a redução das marchas, comandada por alavanca independente; até o ar-condicionado tem sua função no
off-road, de servir como freio-motor adicional onde não há aderência suficiente para usar os freios. Tais características justificam a tradição da Suzuki no terreno dos utilitários, iniciada em
1968, e provam o acerto na concepção do Vitara, sucesso de vendas em todo o mundo e cujo sucessor, também vendido aqui como Chevrolet Tracker, manteve as mesmas características, apesar do motor maior e da atualização de estilo. Pena que a geração atual, que começa a ser vendida esse ano no Brasil com o nome de Grand Vitara, parece ter se voltado para os tais consumidores das portas de restaurante e estacionamento de supermercado, jogando por terra o nome de um dos jipes mais queridos do Brasil.