quarta-feira, 31 de outubro de 2012

RALLY RETRÔ 2012


Instantâneo em um trecho mais tranquilo; estradinhas em meio a uma exuberante paisagem

Apesar de gostar de tudo o que anda sobre quatro rodas desde muito antes de aprender a falar, até o último final de semana eu nunca havia participado de uma competição de automóveis. Uns raids em encontros de carros antigos aqui, umas corridas de kart indoor ali, e assim se resumia a minha frustrante carreira de piloto. Até que, algumas semanas atrás, fui convidado para participar de uma prova de rali de regularidade à moda antiga. Qualquer carro poderia ser inscrito, mas os instrumentos de navegação não podiam contar com eletrônica embarcada, GPS ou outros programas semelhantes; o percurso seria de 40 km em estradas de terra (que algumas vezes mais pareciam trilhas) e mais uns 15 de deslocamento no asfalto, a serem cumpridos em pouco mais de 2h.
 Os equipamentos de bordo, além do velocímetro

Meu navegador, ralizeiro das antigas e bicampeão brasileiro da categoria em 1982-83, que teve a honra de correr contra Michèle Mouton, Hannu Mikkola e outras feras, foi o responsável pelo convite, certo de que eu, perfeccionista e freqüentador de encontros estáticos em que os carros chegam de cegonheira, não toparia. Topei, deixando para decidir com qual carro iria para a última hora, hesitando entre o MGB e o Fuscão. Prevaleceu a robustez e simplicidade do Volkswagen e começaram os preparativos. Por preparativos, entenda-se e retirada do porta-luvas para instalação de um Halda Tripmaster, com medida de centésimos de quilômetros (10 em 10 metros), ligado ao cabo do velocímetro, e retirada das calotinhas de plástico que cobrem os cubos das rodas - são raras hoje em dia e custam os olhos da cara quando encontradas, principalmente na cor cinza, que só saiu em 1974. A pressão dos pneus, normalmente em torno das 20-22 libras, foi para 28 libras nos quatro, fazendo com que o carro pulasse feito um cabrito. Os instrumentos de navegação se resumiam a um maravilhoso Heuer mecânico com "espião" e uma calculadora Curta, também mecânica.

Foto tirada às pressas no final de um trecho de deslocamento, alguns segundos antes do início de trecho cronometrado: adversários de respeito

Preparação feita, trecho de aferição cumprido, fomos para a largada. Como fomos os primeiros a chegar, nos deram o número 01 de dez inscritos e lideraríamos o pelotão. Um pouco antes, na concentração, me dei conta do tamanho da encrenca que tinha arrumado. Meus adversários, além de um Renault Clio, eram jipões, SUVs e pick-ups. E as regras sobre usar apenas equipamentos de época foi grotescamente burlada, com laptops e equipamentos de GPS ali, na cara da organização, o que não afetou o clima de camaradagem de vários ralizeiros que não se viam havia décadas se misturando aos mais novos, alguns inclusive freqüentadores de provas organizadas pela Mitsubishi.
O percurso foi cumprido com relativa tranquilidade, embora as dificuldades em vencer alguns trechos estabelecesse uma conexão impressionante entre carro, piloto e navegador. A cada PC que passávamos (zeramos dois deles) explodiam palavrões e muita vibração, não muito diferentes dos palavrões e da tensão a cada atraso, que tinha que ser compensado no "braço" com velocidades impensáveis em estrada de terra, além de contra-esterços e sacolejões que maltratariam a coluna de qualquer atleta - quanto mais a de dois sedendários  convictos como nós! Para aumentar a emoção, a porta do passageiro, pouco habituada a condições tão difíceis, foi abrindo o tempo todo, rendendo mais algum trabalho ao meu navegador, que só tinha descanso nos trechos de deslocamento, quase todos em asfalto.
Fim de prova: 40 km sem um único engasgo

Na apuração dos tempos, ficamos com um surpreendente segundo lugar, atrás de um Gran Vitara que - pasmem - só contava com um cronômetro, o odômetro com centenas de metros e uma calculadorazinha barata. Depois de recursos, choradeiras e polêmicas (principalmente por parte da turma que se valeu dos equipamentos não permitidos), a classificação acabou sendo alterada, mas, no final, todos foram declarados vencedores e o churrasco correu até altas horas com todos animados para a próxima. Ah, o Fuscão? De todos os veteranos que estiveram lá, acho que foi o que mais se sentiu revitalizado no evento...
Para finalizar, fica o meu agradecimento ao meu sogro, Eduardo Santana, navegador de primeira categoria, que começou a carreira justamente em um Fuscão, há quase 40 anos.

De volta para casa: cansado, imundo e feliz


P.S.: Por motivo de luto na família, esta publicação saiu três dias após o previsto. O Antigomóveis conta com a compreensão dos leitores

7 comentários:

regi nat rock disse...

Luto em familia é um pé no saco Dotô. Abraço solidário.
Quanto a proeza, quer coisa melhor? E de fusca? O gosto da poeira nunca mais sairá de sua boca. É o que eu sinto até hoje (em janeiro 3 anos já) desde que o doido Paulo Trevisan permitiu que eu e outros malucos acelerassem suas jóias em Guaporé. Tenho tudo vivo - vivíssimo - em mim e com o sabor de "quero mais"... Parabéns pela proeza!

Anônimo disse...

Amei o texto!! Beijos Julia

Paulo Levi disse...

Luís, também eu me solidarizo com você e com sua família pela perda que sofreram.

Gostei muito do seu relato sobre o rali, que me fez sentir como se eu estivesse acompanhando o evento in loco. E naturalmente, parabéns pelo brilhante segundo lugar!

M disse...

Dotô !
Parabéns pela iniciação !
E parabéns ao navegador ! Um Twinmaster e uma Kurta, nas mãos de quem entende, faz frente a qq traquitana eletrônica !

Celso Ricardo disse...

Fusca sempre fusca quando tive um tempo de uma olhada no meu blog http://reciclandoconhecimento.blogspot.com.br/2012/10/fusca-1967-escala-132-fabricante.html abs,celso

Francisco J.Pellegrino disse...

Luís, em primeiro lugar a solidariedade a todos da familia...estávamos aguardando seu post sobre o assunto...e ficou nota 10, parabéns a vc e ao sogrão não pelo resultado e sim pela participação que deve ter sido muito boa....abração meu amigo.

Luís Augusto disse...

Obrigado, amigos, vamos tocando a vida e nos divertindo um pouco, quando é possível. Abraço a todos.